sábado, 2 de maio de 2009

HISTÓRIA NA IMPRENSA: Especial: Maria Taquara afrontou a sociedade e foi imortalizada em ferro e concreto

Personagem controversa, que enfrentou preconceitos e afrontou as normas da sociedade tradicionalista das décadas de 30 e 40 em Cuiabá.
Maria Taquara é figura presente nos livros cultura regional. Ela não fez nenhum ato patriótico, não combateu na guerrilha e nem governou nenhuma cidade. Ela simplesmente existiu e desde então enche de graça o imaginário daqueles que vivem ou passam por Cuiabá. Mulher, pobre e negra. Maria Taquara sempre soube que a vida não seria fácil, ainda mais em uma sociedade conservadora. Mas foi neste contexto histórico que Taquara se transformou em uma lenda na cultura local.
Contraventora das normas vigentes de então, Maria Taquara foi a primeira mulher a abolir as saias. Ela viu na calça comprida a sua marca registrada. Naqueles tempos, a calça comprida só era utilizada pelos homens. Era peça exclusiva do vestuário masculino. No entanto, Maria não pensou duas vezes em usar a peça durante suas andanças pelas ruas de Cuiabá. Dizem alguns historiadores que ela causou escândalo à sociedade por seus hábitos. Não era proposital. Foi a necessidade que a levou a usar roupas mais resistentes para a labuta nos córregos e rios da capital. Maria era lavadeira.
"Maria Taquara, Maria meu bem."
Tinhosa, sisuda, esperta, suja, maltrapilha, negra, horrenda e desembaraçada. Qualificativos ou não, estes são alguns dos adjetivos que a história cuiabana tratou de injetar em Maria Taquara. Foi o biotipo, alta e magra, que lhe rendeu o apelido de Taquara. E a história ainda reservou outros capítulos para a personagem lendária. Taquara morava em uma cabana localizada no bairro Goiabeiras. Ela residia mais precisamente nos fundos do 44° Batalhão do Exército. Nesse período, as más línguas contam que Maria Taquara não rejeitava o carinho dos aspirantes ao Exército. Desta constatação, ela ficou assim denominada: "de dia Maria Taquara e, de noite, Maria meu bem".
As andanças de Maria pelas ruas da capital davam um sabor a mais na vida de comerciantes e trabalhadores da região central, que a conheceram. Por trás da lata d’água na cabeça e do pé descalço havia uma denúncia social. Maria representou em cenas da vida real a marginalização de uma grande parcela da sociedade cuiabana que estava alheia ao processo de transformação social que vigorou fortemente em meados dos anos 50, em Cuiabá.
A lata de querosene sempre vazia era mais um símbolo de que aquela gente encarnada por ela queria melhorar de vida. Indignada ou até avessa ao processo histórico, Maria recorria a longos momentos de abstração com seu cigarro de palha, debaixo das árvores de Cuiabá. Foram muitos estes momentos registrados por alguns que confessam ter visto Maria desta forma. Para o poeta e membro da Academia Mato-grossense de Letras Moisés Mendes Martins, Taquara se tornou uma lenda. "Eu cheguei a conhecer Maria Taquara pelas ruas de Cuiabá. Era uma figura e tanto. Alta, magra, pele negra e cabelos esvoaçados", confirma o poeta.
Homenagem
Mas quando Maria deixou de perambular pelas ruas de Cuiabá? Não há registros na história local que comprovem o desaparecimento de Taquara. O que existe são alguns depoimentos de pessoas mais próximas a ela, mas que nada acrescentam. Talvez a atemporalidade presente na história de Maria explique a sensação de que ainda teremos a oportunidade de conhecê-la durante suas andanças pelas ruas da capital.
Depois de chegar às páginas dos livros de cultura regional em Mato Grosso, Maria Taquara foi homenageada com uma praça em Cuiabá. Hoje Taquara não caminha como antes pelas ruas e becos. Ela está em pé e descalça sobre uma estrutura de concreto no centro da cidade. Seu corpo é metálico, formado por uma estrutura de ferro forjado que pesa mais de 300 quilos. Segura de si, Maria está de olhos arregalados. É o espanto com tanto barulho e movimento de pessoas que passam apressadamente à sua volta. A velha trouxa de roupas na cabeça ainda é presente. São as marcas de um tempo que não volta mais.
Maria como Taquara. Taquara como Maria. Indissociáveis, estas figuras marcaram a cultura regional simplesmente porque foram únicas. Moisés Martins, em um poema, presta homenagem à cuiabana:
"A sua presença é necessária sim!Maria Taquara, Maria Mulher, ou Maria,Pois desmascaras esta sociedade vaziaDe amor, hipócrita, promíscua e de festim!
(..) Aqueles que tratavam com desdém,Cujos espíritos eram mendigos e de tara,Para eles, de dia eras Maria Taquara,Entretanto, à noite eras Maria Meu Bem!"

sexta-feira, 1 de maio de 2009

LENDAS MATOGROSSENSES

AS LENDAS ABAIXO FORMAM RETIRADAS DO LIVRO: LENDAS DE MATO GROSSO, DE DUNGA RODRIGUES

LENDAS RELACIONADAS COM SANTOS

1- A IMAGEM DO SENHOR BOM JESUS DE CUIABÁ
Os dados históricos informam que a igreja do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, hoje Catedral e Basílica Menor, foi construída em 1722, pôr Jacinto Barbosa Lopes, três anos depois da fundação do Arraial, com a eleição de Pascoal Moreira Cabral para Guarda-Mor Regente. E a primeira missa foi celebrada pôr Frei Pacífico dos Anjos.
Acerca da imagem, nela venerada, conta-se o seguinte: foi encontrada na ilha de Manoel Homem, abaixo da confluência dos rios Verde e Aguapé, a duzentos e vinte e cinco léguas aproximadamente, distante de Cuiabá. Manoel Homem o nome de um criminoso foragido pelo sertão, tendo ele próprio encontrado a imagem.
Para abrigá-la construiu um rancho tosco de palha. Porém, o lugar onde a recambiara tornou-se muito movimentado, com a passagem de viajantes, e pôr temor à justiça embarafustou-se mata a dentro, deixando lá a imagem.
Um comerciante, que de Cuiabá se dirigia a São Paulo, tentou levar a imagem consigo, mas não houve força capaz de removê-la. Mais tarde, em viagem inversa outro caminheiro conseguiu trazê-la para Cuiabá.
Ostros dados históricos informam que o Senado da Câmara, tendo conhecimento do achado, nomeou uma comissão para trazê-la de Camapuã, onde se encontrava.
Fabricada em Sorocaba, pelas mãos de uma mulher, fora de lá trazida pôr Pedro Morais, nos primeiros anos do descobrimento destas minas. Pôr dificuldades, não podendo carregá-la até aqui, deixou-a num rancho , no lugar chamado Guarapiranga.
Para buscá-la, organizou uma expedição de vinte e cinco homens, ocupando três canoas e sob a chefia do capitão Domingos Barbosa. Trouxeram-na em caixão fechado até o porto geral, aonde fora encontrá-la uma procissão, levando-a até à Matriz.
Acrescentam que, na ocasião, pregou o frei José Angola.
Durante quatro dias comemoraram o fato, com representação de duas comédias, banquetes e fogos. As festas foram custeadas pôr pessoas importantes, principalmente belas burras de Sampaio Couto e Antônio Corrêa de Oliveira.
Dizem que após colocada na Matriz, ainda coberta de palha, a imagem desapareceu duas vezes, voltando para Camapuã.
Foi quando a população fez votos de construir uma igreja decente, coberta de telha, no mesmo local onde até hoje é venerada. Esta igreja foi destruída à dinamite, há poucos anos atrás, e os seus altares, com entalhes a ouro e fogo, retirados da nova Catedral, construída nas linhas modernas.
O povo assistiu, de braços cruzados, delapidação do seu patrimônio artístico.
NOTA: Dados colhidos em "Irmandade do Senhor Jesus de Cuiabá", da autoria de Firmo José Rodrigues, do Instituto Histórico de Mato Grosso e publicado em seu livro "Figuras e Coisas de Nossa Terra" 2º Volume.






2- NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO



(Fonte - Lendas Mato-grossenses de Feliciano Galdino.)
Esta Santa tão venerada pelos livramentenses que, ao visitarmos a igreja local, achamos a imagem de pequenas dimensões em proporção ao santuário que é vasto. Ao manifestarmos isto, logo as pessoas presentes protestam: Não, disseram, ela é muito grande. O seu tamanho se mede pelos milagres que ela faz.
No tempo em que esta cidade era apenas mais uma lavra, passou pôr lá um tropeiro com o seu burro, equipado de duas bruacas enormes, indo em uma delas linda imagem de Nossa Senhora. Após a parada de pouso e a matolotagem demorada, resolveu o tropeiro prosseguir o seu rumo. Qual não foi, porém, seu espanto, ao ver que o burro ofereceu resistência para andar empacando definitivamente.
Experimentou aliviar a carga do burro, retirando a Santa. Imediatamente pôs-se o eqüino a caminhar. Repôs a Santa na bruaca e o animal emperrou outra vez. Foi prova convincente de que era o desejo da Nossa Senhora permanecer naquele sítio.
Todo povoado acorreu, satisfeito com a preciosa dádiva, e se apressou a erigir-lhe uma capelinha rústica que se transformou hoje na Igreja de Nossa Senhora do Livramento.



3- A LENDA DE NOSSA SENHORA
(Fonte- A Princesa Branca do Vestido Azul - Lendas Mato-grossenses do Professor Feliciano Galdino).
No tempo em que se deu o fato, a vila de Livramento era circundada por densos bosques.
Extensões de matas virgens, pontilhadas de raras propriedades, exibiam o poder latifundiário dos antigos posseiros.
Uma criança de seus quatro anos, encantada com a variedade de borboletas e o canto dos pássaros, saiu-lhes ao encalço, penetrando os bosques. Distanciou-se tanto da casa que principiou a Ter medo, fome e sede. Errou muito tempo pela mata, a chorar e a chamar pela mãe.
Exausto o menino encontrou-se à beira de um riacho, onde uma linda moça de olhos azuis, da cor de sua roupa, lhe tomou a mão carinhosamente.
Ao se aproximarem da vila, ela disse:
- Se lhe perguntarem quem o trouxe aqui diz que a melhor amiga de todas as mães, a princesa branca de vestido Azul.
Trouxe um grande regozijo a sua volta ao lar. Todos, escravos e forros, procuravam pelas matas, na correnteza dos ribeirões, aquele corpinho inocente que julgavam desaparecido nas águas ou entre as serpentes venenosas dos ciposais. Para comemorar o acontecido, mandou-se celebrar missa na capela da vila.
Ao entrar acompanhado dos pais e de toda a família, reconhecidas as graças da Virgem Santíssima, o garotinho exclamou :
- Olha mamãe, veja bem aí a moça que me trouxe para casa. O mesmo vestido Azul, é ela sim!
Milagre de Nossa Senhora do Livramento, que os fitava do seu nicho enfeitado de flores.






3- CAPELINHA DE MARIA ANTÔNIA (Diamantino - Tradição Popular)
A cidade de Diamantino, de qualquer ângulo em que é vista, se assemelha a um cartão postal. Tão bucólica e pitoresca, ela ponteia no alto da Serra de Diamantino debruçando-se sobre um extenso vale, muito verde, cortado pelo rio Paraguai. Do alto, vê-se emergir, aqui e ali, maloca de índios, mas que não são índios, mas de pobreza que se aloja em ranchos de capim. Adiante o Seminário dos Salesianos que se estende naquela verdura acentuada como uma neve branca.
Um navio perdido num mar de selvas. Á entrada da cidade, uma curiosa capelinha, onde há sempre flores votivas, chama a atenção dos visitantes.
Ora é uma coroa de rosas, ora um buquê de noiva, ou mesmo flores do campo a enfeiram. E o povo vai logo desfiando a estória.
"Ninguém sabe pôr que a Maria Antônia começou a beber. Moça bonita e de boa família, se viciou na bebedeira, que chegava a cair na rua tão tonta que ficava.
Não tendo mais dinheiro para alimentar seu vício, pedia no botecos e biroscas seu dedo de cachaça para matar o bicho, ou melhor, o hábito inveterado.
Um dia, já semi-inconsciente, enveredou-se pela mata, distanciando-se cada vez mais da cidade.
Escurecia e, desnorteada pela bebida e pelo pavor, tomou-se de pânico, pois não atinava com o caminho de volta. Corria desorientada penetrando cada vez mais na mata, sem achar uma vereda que a conduzisse ao povoado.
Num lampejo de raciocínio, sentiu-se completamente perdida e se pôs de joelhos invocando um milagre de Nossa Senhora.
No mesmo instante, numa forte intuição, guiou-se pôr uma trilha que a levou facilmente ao rancho onde morava.
Daí pôr diante, Maria Antônia cumpriu a sua promessa. Jamais tornou a beber.
E ao morrer, muito mais tarde, parece que de tal forma redimiu dos seus pecados que a sua alma pura criou poderes de conceder milagres.
Então, eram as almas terrenas que lhe faziam votos e, alcançada a graça, cumpriam depositando flores naquela capelinha que alguém construiu, cumprindo promessa pôr Ter alcançado um favor seu.
4- NOSSA SENHOR DO CARMO DE CANGA
Com a abertura da reta, que leva à Transpantaneira, encurtando para hora e meia, ou menos, o percurso entre Cuiabá e Poconé, pôs-se à mostra interessante capelinha colonial, com o seu campanário destacado do corpo da igreja encimado pôr um simbólico e bem esculpido galo prateado.
Os remanescentes da antiga Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, a quem pertencia oficialmente a gleba, com papel registrado em cartório e tudo, escassos membros da antiga confraria, relatam-nos o seguinte:
O local, onde havia abundantes veios de ouro, escavados na canga bruta, donde adquiriu o nome, possuía um curral dessa pedra, verdadeira muralha, onde eram encarcerados os escravos, cujos braços serviam de reais ferramentas, para britar o chão empedrado, à cata do ouro que se encravava nas profundezas. À noite, após uma parca ração, eram ajoujados dois a dois e encerrados naquela fortaleza, ao relento, sem o mínimo conforto para relaxar o corpo cansado da labuta diária.
E os dias se sucediam igualzinhos, cheios de dura lida e sofrimento.
Eis que certa vez, nesse afã de cavar, encontraram, em cima de uma pedra canga, uma santa. A mesma segundo a lenda, que se vê atualmente sobre o altar da capelinha. Fizeram-lhe imediatamente um rancho, coberto de palha, e ela logo se tornou a padroeira do local. Um padre, que visitava os sertões, fazendo batizados e casamentos e convertendo almas, achando a santa muito linda, para ser venerada naquele lugar ermo e distante, levou-a para Poconé.
A Santa anoiteceu em Poconé, mas amanheceu em Canga, de maneira misteriosa. E aí, fizeram-lhe de imediato, um outro rancho de capim verde.
Com a oferta dos crentes, que alcançavam favores com sua interseção, foram adquirido material com o qual a igrejinha foi construída.
Um fazendeiro rico, em troca de um milagre obtido, passou-lhe em cartório várias léguas de terra. Logo se fundou uma irmandade com o seu nome e sob o seu patrocínio.
Todo o pessoal da Irmandade morava na área pertencente a Santa, apoiados devidamente na própria escritura.
Atualmente esta área ficou muito reduzida. Só lhe resta a periferia em que se situa a capelinha, que já teve o seu altar mor, todo de madeira entalhada, destruído por um incêndio. Um promesseiro incauto acendeu-lhe uma vela aos pés do altar e dela se esqueceu. O vento entrando pela janela, levantou labaredas que alcançaram a toalha rendada do altar; alimentando com matéria de fácil combustão, como flores de papel e madeira seca, o fogo se alastrou e tudo consumiu. Quando os moradores da redondeza deram acordo do fato, pela fumaceira que saía pelas janelas, só restava intacta a Santa em seu nicho.
Interpretaram os moradores, como ira da Santa pela invasão de sua possessão e vêem nisto um dos seus grandes milagres, por se escapar incólume de tamanho fogaréu.
O interessante nessa igreja é notar a torre completamente destacada do corpo, mas conservando o mesmo estilo, como a completá-la. Ela foi construída, por um homem chamado João Noberto, que alcançou uma graça de grande monta e, por difícil de acontecer, era considerado como um caso sem solução.
Comentário de um morador atual, recriminando a venda das terras da Irmandade. "Muito fácil negociar com Santo, porque eles não descem do reino dos céus, para discutir preço com o comprador".
NOTA: - Fornecida pela professora Trevil Martins.






5- LENDA NO BANHO DE UM SANTO
Durante o mês de junho, o povo da região ribeirinha costuma realizar uma festa tradicional em homenagem a São João Batista. Por tradição, no início da madrugada, o Santo é retirado do altar e transportado através de uma procissão que se dirige às margens do rio Cuiabá onde acontece o emocionante ritual denominado "Lavagem do Santo".
A imagem do Santo é banhado cuidadosamente, e a maioria das pessoas que acompanha a procissão se preocupa em olhar na água a fim de ver suas imagem refletida, pois, segundo uma lenda antiga, aqueles que não conseguir avistar seu rosto não alcança a festa do ano seguinte.
LENDAS ATRIBUÍDAS AO PADRE JOSÉ MARIA DE MACERATA
NOTA: - Estas lendas se referem a frei JOSÉ MARIA DE MACERATA, da ordem dos Capuchinhos, que, no século XIX, foram os pioneiros da catequese e da civilização de índios e mesmo das pessoas da terra.
Dizem que morrera em odor da santidade. Sendo vidente, com poder de profecias.
Foi o primeiro prelado de Mato Grosso. Ao morrer deixou enorme acervo de obras pias e serviços prestados.
5- TELEPATIA
Frei José, frei Macerata, ou frei Capuchinho, tratamentos que redundavam numa só pessoa, parecia conhecer as criaturas, tanto pela direita como pelo avesso: não se podia pensar diante dele, era mesma coisa que bradar em altas vozes.
Adivinhador de pensamentos estava ali.
Certa vez, subia o beco do Xixo, em demanda à igreja Matriz, vizinha do Quartel do 21, onde hoje se planta o Palácio da Instrução, construído na vigência do coronel Pedro Celestino, para ser sede da Escola Normal, quando dois soldados do corpo da guarda, ao avistarem-no, cochicharam:
- Eu queria Ter aqui esse tal frade, que aí vem, para lhe encher as mão de palmatórias, e ver se ele é mesmo fazedor de milagres, como dizem.
O segundo mais piedoso retrucou:
- Eu queria tê-lo aqui para receber a sua santa bênção e fazê-lo derramar as graças do senhor sobre mim.
Mal disseram, bem viram aproximar-se da guarita o santo sacerdote, com as mãos estendidas:
- Aqui me tendes, disse, estendendo a mão esquerda ao primeiro: - Use a palmatória para destilar as impurezas do vosso coração.
E abençoando o outro, estendeu-lhe a mão direita para que este a beijasse, abençoando-o em nome de Deus-Pai-Todo-Poderoso.
Os dois soldados, deslumbrados e tementes, prostram-se perante Frei José de Macerata.
6- O CAVALO E A COBRA
Enquanto algumas pessoas atribuíram à piedade do sacerdote o seu prestígio até entre irracionais, outros, sem poder de compreensão e atônitos, atribuíram-lhe algum pacto com Satã, pelas coisas prodigiosas e inverossímeis que ele praticava. Qual não podia ser deste mundo tal homem!
Para comandar animais e ser obedecido por eles, de quem se tem notícias, só São Francisco de Assis, quando trocou por uma humilde estamenha as pompas e glórias desta vida terrena.
Foi ainda andejando por esse mundo de Cristo, que, um belo dia de soalheira, frei Macerata cedeu aos rogos do seu acompanhante, morto de fadiga, para uma rápida sesta, à sombra de frondosa quineira.
Ao acordar, sua montaria se esvaia em sangue, com os olhos já variados, devido picada de venenosa serpente.
Astuto como ele só, o padre sem perder tempo pôs-se a assobiar forte, ecoando pelo sertão aqueles sons que mais se pareciam com silvos de outros animais. A resposta não se fez esperar. Lentamente, veio coleando enorme réptil, com ares de culpa, a que frei recriminou:
- Tu que fizeste tanto dano com teu veneno letal, repara já esse mal e põe fora de perigo de vida, o cavalo.
Obediente, a cobra esticou a sua língua sobre a ferida do animal e retirou dela todo o filtro maléfico que ali havia inoculado. À medida que fazia, o animal ia recuperando as forças e voltando à vida. Quando o animal se pôs de pé, os viandantes reiniciaram a jornada e rumaram ao seu apostolado.
7 - O FRADE E OS ÍNDIOS
Outras lendas são atribuídas a frei José. Verdadeiros casas de encantamento, que, se escaparam do conhecimento Sea Ozébia, outros que as presenciaram ou delas tiveram notícia, transmitiram-na de boca até os nossos dias.
Os descendentes de D Escolástica Martins da Cruz, a quem pertencia o engenho de S. Romão da Serra Acima, atestavam por ouvir dizer, o caso da queixa desta senhora ao santo padre.
- Ilumine-me, frei Macerata, para que se faça algo, a fim de afastar de vez as investidas perniciosas dos índios, nos domínios do meu sítio. - Nos últimos tempos não nos dão tréguas para o trabalho de roça e de engenho.
Hordas de bugres infestavam freqüentemente a propriedade, chegando ao abuso de se aproximarem da Casa Grande, vindo até o terreiro da frente.
- Além do mais, causam pânico aos meus camaradas, pois eles vêem armados de arco e tacape.
Frei José limitou-se a um olhar, circundando o horizonte, estendeu as mãos pelos pontos cardeais, limitando o assédio dos selvagens, num gesto de quem benzia e ao mesmo tempo demarcava uma área da fazenda.
Ao terminar, disse à Dona Escolástica: - De hoje em diante, eles não ultrapassarão as cercas de sua propriedade. Assim se sucedeu.
LENDAS DE TRADIÇÃO POPULAR.
8- A CABEÇA DE PACU
O Pacú é um peixe da família dos caracídeos, muito abundante no rio Cuiabá e seus afluentes.
O sabor é excelente, até há que o julgue superior ao pirarucu.
Quando seco é possível guardá-lo por vários meses pois de fácil conservação. Se houvesse uma exportação regularizada, talvez constituísse boa fonte de renda para o Estado.
Há entretanto certa superstição quanto a sua cabeça.
Dizem que ao ingeri-lo, se se trata de um forasteiro, jamais este deixará Cuiabá.
Se for homem solteiro, estará fadado a contrair matrimônio com moça da terra.
E se for casado, estará condenado a terminar os seus dias aqui.
É este o prestígio e atrativo cabalístico de um cabeça de Pacú.
Certa vez, quando da disputa eleitoral entre o Brigadeiro Eduardo Gomes e o Marechal Dutra, à presidência da República, numas tréguas desse mister do voto, reuniram-se numa mesa do antigo Bar Sargentini, várias moças e um engenheiro nordestino, de grossa aliança no anular, símbolo de casamento marcado para o mês próximo, com uma moça da Bahia. Debatiam acaloradamente a atração e sortilégio da cabeça do Pacú.
- Desafio, disse o rapaz, a comer hoje mesmo a cabeça do tal peixe e desmascarar essa lenda idiota, pois nestes dias estarei casado na terra das moças bonitas e comemorando a vitória do Eduardo Gomes, que é fato líquido e certo, o seu empoçamento na chefia do país.
O certo porém, foi o Marechal Dutra se entronizar na mais alta investidura do Brasil e ele casar em Cuiabá, pois inexplicavelmente o seu noivado se desfez logo após.
NOTA: Tradição Popular.
9 - O PEIXE BOTO
Na cidade de Vila Bela, banhada pelo rio Guaporé, voz corrente na cidade, a existência, naquele rio, do peixe Boto, que tem cara e barba de homem. Segundo dizem o procedimento do peixe é idêntico ao do ser humano, isto é, ele não se afugenta com a proximidade das pessoas. Muito pelo contrário, chega a brincar com as crianças que se banham naquelas águas, procura salvar, quando está alguém perecendo por afogamento, e, quando há viajantes em barcos ou canoas, pula inesperadamente dentro destas embarcações, para dar medo aos passageiros. É regra entre este espécime que os peixes machos procurem salvar as criaturas do sexo feminino, em perigo de afogamento, e os peixes fêmeas salvam os homens em perigo de vida. Também, os peixes fêmeas tem o ciclo mensal igual às mulheres. Supõe-se que sejam tão domesticáveis quanto os golfinhos.
NOTA: colhida no município de Cáceres, entre os canoeiros do Guaporé.
10 - JAÚ DE CABELOS
Antigamente, num local bem freqüentado pelos melgacenses, onde as mulheres lavavam as suas roupas e os homens tomavam banho, eles costumava fazer sempre uma ritual ao entrar no rio, benziam o corpo antes de mergulhar, com a finalidade de espantar o Jaú de Cabelo que, segundo o comentário dos mais velhos, vivia ali por perto. Eles costumavam dizer que esse peixe estava tão velho, mais tão velho, que já estava ficando caduco e que, possuía cabelos em várias partes do seu corpo. No entanto, era uma peixe inofensivo que tinha o habito de brincar com os banhistas, pregando-lhes peças apenas para se divertir com os desesperos destes. Muitos tentaram apanhar o Jaú mas não obtiveram êxito pois, apesar da idade, ele sempre conseguiu se livrar e por isso passou a ser considerado "encantado". E anos mais tarde ele se mudou e nunca mais foi encontrado.
11 - A FÚRIA DE UM MINHOCÃO
A lenda sobre a existência do Minhocão é uma das mais conhecidas em todo Estado de Mato Grosso. O minhocão trata-se de um monstro que vive no poço do Rio Cuiabá, são várias histórias sobre o bicho que ataca barcos a noite, que faz imenso barulho, agita as águas do rio e causa horrores aos pescadores. Contam também que o bicho derrubava a barranca do rio para perseguir aquele que o enxergava.
A lenda do minhocão contado por Sea Ozébia.
Este rio tem história! Quando ouvir
12 - CURUPIRA
O curupira é representado por um anão de cabeleira rubra, pés ao inverso, calcanhares para frente. Segundo a lenda, eles vivem nas matas brasileiras, são considerados verdadeiros demônios pelos índios, testemunhas das suas maldades, pois, por muita vezes, estes foram perseguidos e alguns mortos. Tendo os pés tortos, o curupira deixa um rastro mentiroso, por isso é considerado o enganador das florestas e fazendo com que o homem que vai atras dele perde-se na selva tropical . O curupira é acusado de raptar crianças.
É um mito de origem tupi-guarani, sendo comum em quase todo Brasil.
13 - NEGRINHO D'ÁGUA
O pescador lançou o anzol no rio. Era noite de luar. Esperou uma hora.... e nada! Nem um beliscão no anzol. Esperou outro tempão..., puxou a linha, não havia nem isca, nem anzol. Fora o Negrinho d'água quem cortou a linha de pescar. Nisto deram um forte empurrão na canoa.
O pescador olhou assustado... e era o Negrinho d'água que estava dentro da canoa, jogando toda isca fora.
14 - TIBARANÉ
Segundo a lenda, o Tibarané passa alta noite assobiando. É um pequeno passarinho encantado. Se alguém necessita de algo, um favor ou benefício, pede ao Tibarané quando ele passa à noite e lhe promete um pedaço de fumo. Realizado o pedido, logo ao anoitecer, aparece um homem pedindo um pedaço de fumo.
Esse homem é o Tibarané que vem buscar o pagamento.
15 - MULA SEM CABEÇA
Dizem que nas noites de sextas-feiras aparecem as Mulas Sem Cabeça. Dizem que são as concubinas dos padres, que, quando morrem viram Mulas Sem Cabeça.
A Mula Sem Cabeça quando sai, constitui um verdadeiro perigo. Dá coice, morde, rincha, faz uma barulheira infernal que não deixa ninguém dormir.
Ela ataca qualquer pessoa que sonda o seu mistério. Detesta espelhos e tudo que brilha. Ela não passa por encruzilhadas e nem pode chegar perto de igreja.
16 - LENDA DE JACIARA
"A canoa, puxada a quatro remos, descia o pequeno afluente do Amazonas, desviando-se , ligeira, das grandes manchas de plantas aquáticas que a correnteza preguiçosamente arrastava. Quando o velho índio Tibúrcio, sustando a remada, começou a contar-me a mais famosa lenda daquelas Ribeiras:
- Antigamente, meu senhor, este rio era limpo de toda sorte de aguapé, e de corrente tão clara que se podia ver, de dia, as traíras, os piaus e os mandis rabeando no fundo, no grande leito de areia dourada. Nesse tempo, morava na cabeceira do rio, onde as águas são mais puras, um velho índio, o famoso Tauí, cuja filha JACIARA, assim chamada por ser a Senhor da Lua, era com os seus olhos mais negros do que o Acapri, a mais formosa moça da redondeza.
O caboclo enfiou, de novo, o úmido remo no grande leito do rio, fê-lo roncar Saturno, nas profundezas d'água silenciosa, e levantando-o gotejante, continuou a narrativa:
- Um dia, voltando da caça, adivinhou Tauí, de longe, a presença de um estranho na palhoça que lhe servia de casa. Arrastando-se, como uma cobra, sobre as folhas do chão, estava o pobre pai a poucos passos da porta de esteiras. Quando de lá pulou um homem, que desapareceu, de um salto, no seio da mataria.
Duas remadas ressonaram, de novo, profundas no leito do rio, impelindo a canoa. E Tibúrcio reatou a História:
- Furioso com a traição da filha, o Índio, feroz, atirou-se contra ela, esganou-a e abriu-lhe de lado a lado, com a ponta da flecha, a caixa do peito moreno. Feito isso, enfiou no seu corpo as grandes unhas de tamanduá e arrancou-lhe, sangrento, o coração ainda palpitante que atirou da porta da palhoça à clara correnteza do rio.
Impeliu mais uma vez, a canoa ligeira, fazendo roncar no seio da água o seu pesado remo de massaranduba, e rematou:
- Desde esse tempo, meu Senhor, começaram a aparecer no rio estas verdes plantas, errantes, cuja flor, alva como a Lua, dorme no fundo das águas e rebenta, à noite, com grande estampido, espalhando por tudo, em redor, a doçura do seu perfume.
E apontando-me uma " VITÓRIA RÉGIA", que descia alva e enorme, nos braços carinhosos das águas, acrescentou, compungido:
- Olhe, lá vai uma, é o coração de JACIARA...
E impeliu a canoa com força."
(Lenda de Jaciara, de Humberto de Campos, do livro "A serpente de Bronze"
17 - A PORCA DOS SETE LEITÕES
Essa mulherada que mata filho antes de nascer, ou injeita anjinho depois que nasce, mulheres desavergonhadas, que desmoralizam a classe, Deus castiga sem piedade. Parece mentira, mas há muita lambisgóia que num qué tê trabalho. Sirigaita, regateira, repudiam o papel de mãe, então, depois de mortas, Deus Nosso Sinhô vira elas bicho mais horroroso do mundo.
Era assim que Ozébia explicava a origem da porca dos sete leitões, que, alta noite, escarreirava os que se aproximassem do Tanque dos Bugres, ali bem no começo do Lavra-Pau.
Assim se chamava aquele trecho da rua 13 de junho, por que toda a área se erguem os vários departamentos de Comissão de Estrada de Rodagem, constituía uma depressão de uns dois ou três metros de profundidade, formando no centro uma grande lagoa, que raramente secava de todo, durante o estio. Ao redor, frondosas goiabeiras, pés de marmelo e de cascudo, tornavam o local convidativo para se acamparem hordas de índios bororós, que visitavam periodicamente a cidade, em caráter pacífico, bem entendido.
Á noite, diziam os que por ali passavam, era comum, à proximidade do local, serem seguidos por uma porca feroz acompanhada de sete reluzentes leitõezinhos, perseguidores também dos retardatários. Afirmavam os que diziam Ter visto a aparição, que frio na alma os invadia, sintoma de grande medo.
Mas os incréus, no dizer popular, atribuíam a mudança de temperatura à umidade constante no local.
NOTA: Versão popular.






18 - A LENDA DA MANDIOCA
No alto da serra dos Parecis, aqui em nosso Estado, alojam-se várias tribos de índios. São palhoças cobertas com folhas de palmeira. Eles à noite, dormem em rede, debaixo das quais acendem uma pequena fogueira. Usam roupas, estão sempre em contato com os brancos e não dispensam adornos, como as pulseiras de algodão ou de borracha de mangabeiras.
O índio Zatanare e a sua mulher Cocoterô tiveram um casal de filhos: Zocoiê, o menino e Atiolô a menina. O pai só gostava do filho, desprezando a filha e nunca falando com ela. Chamava-a, ou respondia com assobios.
Atiolô ficou muito triste com este desprezo, então pediu à mãe que a enterrasse viva.
A mãe resistiu muito, porém, dada a insistência de Atiolô, a mãe a enterrou viva.
Cocoterô, a mãe, a enterrou no meio do cerrado. Mas nesse lugar, ela sentiu muito calor, então pediu a mãe que a enterrasse no campo.
Mais uma vez ela não se sentiu bem, então pediu a mãe que a enterrasse na mata. Aí ela ficou à vontade, mas pediu à mãe que se retirasse imediatamente e não olhasse para trás, quando ela gritasse.
Após muito tempo, ela começou a gritar. Cocoterô virou-se para trás e viu, no lugar onde enterrara a filha, um arbusto alto, mas logo foi-se tornando rasteiro.
Cocoterô passou a tratar a planta com muito carinho, regando-a sempre. A planta foi-se desenvolvendo, até que, um dia, Cocoterô arrancou as suas raízes. Era mandioca.
Os pais deram-lhe o nome de ojacorê e os índios Parecís chamam-na de Quetê.
Extraída da revista "Terra e Gente" - Ano I, Janeiro de 1946 - Rio de Janeiro, p.114.


19. LENDA DO PÉ-DE-GARRAFA
O Pé-de-garrafa é um ente misterioso que vive nas matas e capoeiras. Não o vêem, ou o vêem raramente. Ouvem sempre seus gritos estrídulos, ora amedrontadores, ora tão familiares que os caçadores procuram-nos, acreditando tratar-se de um companheiro perdido. Quanto mais buscam, menos o grito serve de guia, pois multiplica-se em todas as direções, atordoa, desvaira, enlouquece. Os caçadores terminam perdidos ou voltam para casa depois de luta áspera para reencontrar o caminho habitual. Sabem tratar-se do Pé-de-garrafa, porque assinala sua passagem com um rastro redondo, profundo, lembrando um fundo de garrafa. Supõem que o fantasma tenha as extremidades circulares, maciças, fixando vestígios inconfundíveis.
Pé-de-garrafa, Pé-de-quenga, o pé contorço, arredondado, é índice demoníaco. Mãos em garra e pés redondos são "constantes" do senhor diabo. Tem a figura de um homem, é completamente cabeludo e possui uma única perna, a qual termina em casco em forma de fundo de garrafa




LENDAS RELACIONADAS COM ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS
20 - A ALAVANCA DO OURO
(Versão popular. Contada em verso pelo Arcebispo D. Aquino Corrêa)
No começo tudo era ouro.
Dizem os nossos avós que as panelas onde se cozinhavam o feijão e o arroz eram feitas de ouro, preparadas de tal forma que resistiam ao fogo lento ou forte. Os espetos, onde se colocava a carne no braseiro, também eram de ouro reluzente, lançando chispas, quando as brasas levantavam chamas, chegando a doer na vista, de tão brilhantes. Era uma fortuna tamanha desse precioso metal que até ninguém ligava muito importância a ele. Não ligava é conversa fiada. O homem, quanto mais tem, mais quer. Deu-se a escavar e a remexer a terra por todos os cantos. Por isso que até hoje as ruas de nossa cidade são irregulares e tortas. Onde houvesse uma boa porção de ouro, ele finca estacas para construir seu rancho; vinham outros com a mesma ambição e se punham a catas os granetes nesse mesmo lugar e logo formavam uma ruela, um aglomerado de pessoas.
Foi quando alguém topou, no sopé do outeiro do Rosário, com um objeto danado de reluzente, como se fora cravado no fundo da lapa, justamente onde se abria uma fundo covão. Era um escravo dono daquele achado e por lei de servidão tinha de comunicar primeiro ao patrão a sua descoberta.
A boca da noite já havia engolido quase toda a vila com as trevas muito densas. Uma ou outra luz dos candeeiros que vinham das casas pareciam pequeninos pirilampos, nem chegavam para dar visão. Seria melhor aguardar a aurora para levar a nova ao amo. Mas, ... quem disse que é só mulher que não guarda segredos? O homem é a mesmíssima coisa.
O negro da mina não podia dormir, rolando-se ao lado da companheira, cativa como ele.
- Que é que o nego tem? Se é espírito, vô fazê chá de urtiga brava prá nego bebê.
- Num é nada, não!
E o negro foi desabafando, diante da figura aparvalhada da mulher, o que vira com os próprio olhos, coisa tão linda assim! Dito isto, como se transmitisse a preocupação que lhe causava a descoberta, dormiu profundamente, enquanto sua mulher, mal o vira ressonar, correu a contar soubera, indo às tantas acordar outras companheiras de servidão.
Pela manhã todos já sabiam da novidade e corriam as mis disparadas versões. Seria a mãe de ouro, ou mãe da terra, uma bola reluzente que de vez em quando saía urrando do meio do chão e, voando como um foguete, ia-se encrustar noutro lugar do chão, abrindo aí um buraco imenso e sumindo-se nas profundezas da terra? Diziam que essa mudança de mãe da terra sempre anunciava um acontecimento qualquer.
E na maioria das vezes tratava-se de desgraça... Mãe da terra ou não, a coisa estava lá, luzidia e da cor do sol, maravilhando os que dela se aproximavam.
Só que em vez de formato de bola, tinha o feitio esguio de uma alavanca. Seria uma alavanca de ouro, grudada à rocha com tal firmeza que multidão de escravos empenados a cavar em derredor para retirá-la na conseguiam. Pois, novamente deixando apenas perceber alguns centímetros fora da cavidade.
Um grotão imenso já se formara sem que a alavanca se dispusesse a aparecer sequer uma polegada a mais. Os feitores, de chibata em punho não davam trégua aos escravos que não podiam parar nem para limpar o suor que gotejava de suas gafurinhas. Foi quando um velho andrajoso se aproximou de um dos cavadores e lhe pediu água. Temeroso dos golpes da chibata, o escravo mandou-lhe adiante. Mas outro escravo de coração bondoso, menosprezando as chibatas, correu à Praínha, límpido córrego que passava nas proximidades e com o seu copo de couro, encheu-o, dando de beber ao velho sequioso.
- Eu o abençôo em nome de Deus Pai. Escute bem, meu filho, quando a terra gemer três vezes, você trate de subir fora deste buracão e corra para bem longe. Depois você verá. Dito e feito. Passados alguns dias, já haviam solapado a gruta a mais não poder, no delírio de desenterrar a alavanca; e esta, sempre fugia, se aprofundava cada vez mais na terra, acenando o ouro reluzente e nunca visto de que era feita a centenas de ambiciosos que lá meteram os seus servos, família e todos aqueles que tivessem mãos para cavar.
Foi quando a terra tremeu e urrou pela primeira vez, apavorando os que a ouviram.
Um segundo tremor e um ruído estranho, como a voz da terra quando se abre em chagas de fendas profundas, se fez ouvir, seguido rapidamente de outro abalo e outro gemido mais profundo que anunciava o desmoronamento completo das paredes da cavidade, aprofundada muitos metros terra adentro.
Uma densa nuvem de poeira cobriu pessoas, ferramentas dos trabalhadores, feitores com o seu chicote de couro cru e ainda curiosos que se aproximaram da cavidade.
Esta virou um monte com a terra que se esboroou, tragando os que nela mourejavam. Não escapou ninguém para contar. Minto. Só escapou o pobre mas bondoso escravo que dera de beber ao pobre andrajoso, mitigando-lhe a sede.
Este, outro não era, senão o próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, que viera à terra para experimentar o coração humano, descobrindo assim onde havia maldade e ambição e onde se alojava a doçura e bondade.
21 - A SERRA DOS MARTÍRIOS
Bartolomeu Bueno, o Anhanguera, guardou a imagem feérica de uma região que visitara em companhia de seu pai em 1670, ainda adolescente e quando se divertia a colher de pedra roliças de ouro bruto para brincar com elas. Antônio Pires de Campos, seu contemporâneo, partilhou dessa brincadeira, pois ambos participaram da expedição na qual também vinha Manuel Paes Bicudo.
Quarenta anos se passaram, hei-lo a perseguir como um visionário, a região aurífera que se lhe imprimiu nos olhos de adolescente, com todo esplendor de um panorama fabuloso.
Vasculhou os sertões por três anos e dois meses sem poder acertar com a paragem que buscava, por haver tantos anos que tinha visto. Daí, então, outras diligências se aventuraram para atingir as minas dos Martírios, assim chamadas pela aparências de cravo, cruz, coroa e lança, e mais símbolos característicos do flagelo de Cristo.
Houve uma expedição que se dizimou às margens de um afluente do rio Araguaia, que, por isto, foi estigmatizado com o nome de Rio das Mortes.
Enquanto outros aventureiros palmilhavam a trilha de Bartolomeu traçou de S. Paulo, via Goiás, outros seguiam caminho aberto, de Cuiabá a Goiás, pelo sertanista Antônio Pinho de Azevedo, desde 1736.
Desnecessário dizer que a legendária Serra dos Martírios estava sempre acenando, com a abundância de ouro, facilmente encontrado a flor da terra, para a cobiça dos homens.
Em 1897, parte de Cuiabá uma expedição sob o comando do tenente-coronel Francisco de Paula Castro, com a finalidade oficial de explorar os vales do rio das Mortes e do Xingu.
De 14 de junho, quando partiram, só no mês seguinte alcançaram o pouso de Finca-faca, um dia de viagem de Lagoa Comprida.
Neste local houve confabulações com o chefe dos Bacairis, que o persuadiu a tomar um caminho mais próximo às minas dos Martírios, do que procurando as cabeceiras dos rios Casca e Farto, conforme roteiro conhecido. Disse o Bacairi que todos os moradores do Xingu conheciam a Tapera do Anhanguera.
A expedição tomou novo guia e partiu por caminhos ínvios de muitos altos e baixos, até a data de 11 de agosto.
Às margens do rio Coliseu disseram que as montanhas à vista, à margem direita do mesmo rio, davam acesso ao alvo tão custo perseguido.
A quantidade de quartzo na região e algumas faíscas de ouro à margem do rio faziam acreditar na proximidade de fontes mais ricas.
A chegada no local, entretanto, foi a mais dura provação. Os índios chamavam de Tapera do Anhanguera a uma abertura embaixo de uma serra que margeia um ribeirão afluente da margem direita do Coliseu que a expedição denominou de 15 de agosto.
No solo desta abertura encontram unicamente panelas de barro e outros objetos da mesma argila, além de alguns esqueletos. Aquilo parecia Ter sido um cemitérios de índios.
Os acompanhantes do tenente-coronel não se deram por vencidos. Eles acreditaram estar, realmente, diante da lendária Tapera; mas conforme a lenda, o ouro havia-se transformado em ossos de defuntos, porque havia, na comitiva, homens que só pensavam em se enriquecer. Se o metal fosse acessível, eles se tornariam bandidos e assassinos da pior espécie. Por isso Deus operava aquela metamorfose.
NOTA: - Estes dados foram colhidos nos seguintes trabalhos:
1. Limites Orientais de Mato Grosso, do Dr. João Barbosa de Faria - Ver. Do Instituto Histórico de Mato Groso. Vol. III (ano de 1920)
2. Relatório da Expedição Paula Castro - Revista do Instituto Histórico de Mato Grosso - Tomos XXXIX e XL (1938).
22 - BROTAS
Reinava-se, podia dizer, Rodrigo César de Menezes, capitão-general da Província de Mato Grosso, que abusava do poder, tal algoz da população, sedento de ambição de ouro e poderio.
Era tão incongruente a sua conduta, extorquindo com altos dízimos a população, que grande leva de bandeirantes, desgostosos, saíam em caravanas, na demanda de outras plagas, onde pudessem desfrutar de melhores condições de vida.
Famílias e mais famílias, procuravam galgar as serras do Leste, afastando-se cada vez mais da cidade, temendo a escolta do insaciável tirano.
Em meio a um cerrado vistoso, de que é constituída a maior parte do território mato-grossense, algumas famílias resolveram fixar aí o seu acampamento. Enquanto as mulheres se desencumbiam dos seus misteres, acendendo o lume para preparar o repasto, os homens exploravam a nova terra, estudavam a região que os deveria acolher após a sua longa jornada. Amimados, os varões procuravam material e local propício para erguer as suas tendas.
O achado era dos mais convidativos. A margem do Cuiabá, abundante em água e peixes. Nesse tempo, corria, tumultuado pelas inúmeras corredeiras daquele trecho, escondido na quietude sombria do saranzal de suas margens. Muitos peixes entreciscavam à flor d'água, debatendo-se no meio dos cardumes, que eram constantes e volumosos. Peixes tão grandes, que um pacu alimentava uma família inteira. Tão gordinhos, que eram fritos na própria banha e a sobra era empregada na iluminação, a base das lamparinas de azeite.
Sítio ideal para se fincar raízes, era aquele. Até madeira de lei formava mata intrincada, abrindo-se em frondosas copas, como oásis verde na caatinga. Tão majestosas e folhudas eram no local, que o grupo de retirantes escolheu para altar da Virgem que os acompanhava por toda parte.
Cravado no seu nicho, num tronco de uma lixeira nodosa, porém tão rejuvenescida de folhas verdes e festonadas, todos se ajoelharam para render homenagem a Santa Padroeira.
No dia seguinte, qual não foi a surpresa dos madrugadores, ao se lhes deparar com o rústico altarzinho da virgem, envolvido por tenro brotos, que por encanto, despontaram durante a noite. O milagre foi patenteado pelo fato de, a única vaca leiteira com o seu bezerro novo, terem passado diante do nicho, não só respeitando os brotinhos verdes, como pela reverência que fizeram diante da imagem, inclinando-se em genuflexão.
E como toda caravana tem um chefe, o maioral do grupo, advertiu-os a meditar sobre estes acontecimentos, rogando à Virgem que reavivasse, em seus corações a fé cristã, propondo, ao mesmo tempo, chamá-la de Senhora das Brotas.
E a Nossa Senhora das Brotas continuava a velar pelo seu povo, a tal ponto que, ao cair a vaquinha num precipício e jazer inerte, o pai de uma criancinha, órfã de mãe, e cujo único alimento era apenas o leite dessa vaca, o pai, repetimos implorou-lhe a vida do animal, com tanta piedade, que logo este se pôs a mexer, ergue-se, sacudiu a poeira do chão e procurou uma senda para se libertar do abismo.
Neste lugar prosperou a freguesia de Nossa Senhora das Brotas. E no lugar do velho tronco, o altar da Virgem, ergue-se uma capela simples, porém cuidada zelosamente pelos fiéis.
NOTA: - Lenda fornecida pelo escritor Feliciano Galdino, no seu livro Lendas Mato-grossenses.
23 - CASTIGO DIVINO
A jurisdição do capitão-general Rodrigo César de Meneses foi lembrada em nossa história, como um período de arrecadações para o erário real, tão escorchantes para época, feitas à custa do suor e do sofrimento do povo.
As ventosas fiscais era freqüentes e volumosas para um arraial, elevado recentemente à categoria de vila e que ainda contava apenas com nove casas de telhas, ao redor das quais se aglomeravam alguns ranchos de palha, que na febre do ouro, eram disputados até por 500 oitavas as menores, e por 700, as de maior número de compartimentos.
As remessas dos quintos para a Fazenda Real eram feitas em cunhetes devidamente pregados e lacrados, em grande caixas, entregues a um mensageiro de confiança, que, por sua vez deveria depositar a preciosa carga nas mãos de outro provedor, em São Paulo, donde então a valiosa remessa era encaminhada para Lisboa.
Pelos idos de 1727, o provedor Jacinto Barbosa Lopes entregou ao padre André dos Santos Queiroz, em Cuiabá, três caixões numerados. O primeiro continha 4.608 oitavas. O seguindo, 4.608 oitavas também e o terceiro continha 5.047 oitavas de ouro. A esta carga adicionaram-se tantas oitavas provenientes do Paranapanema. Também se reuniram a estas, a remessa anterior de Cuiabá, entregue em São Paulo, pelo tenente-coronel João Antunes Maciel e que constava de quatro arrobas e setecentas oitavas de ouro. A tudo isto acresciam alguns folhetos para a Sua Majestade, com a recomendação expressa de não convertê-los em ouro em pó.
Depois de uma breve parada na capital paulista, sob o domínio de Antônio da Silva Caldeira Pimentel, seguiu este volumoso fardo dos quintos de El-rei com destino a Lisboa.
Lá D. João V, perante o volume de riqueza da encomenda, houve por bem dar um realce especial abertura dos cunhetes cuiabanos, promovendo verdadeiro cerimonial, diante da Corte reunida, devidamente paramentada, como para um ato solene.
Qual não foi a surpresa, quando, vista do cortejo palaciano, entre rendas, veludos e altos coturnos, os cunhetes, ao invés de reluzirem como o sol do novo mundo, se apresentaram cinzentos e sinistros, transformados em chumbo de munição, estarrecendo a luzida assistência.
Coisa estranha e inexplicável, os pesos conferiam com as guias de remessa e não havia sinal algum de avaria; os lacres perfeitos ali estavam as preciosas arrobas transmudadas. Inconformado com o ludibrio, o Rei ordenou devassa contra os responsáveis.
Rigoroso inquérito foi instaurado e o primeiro a cair nas redes da justiça foi Sebastião Fernandes do Rego, cujas falcatruas segundo Afonso de Taunay, foram tremendas, além de acusador e cúmplice na morte dos irmão Leme.
Foi preso no calabouço de Barra Grande, em Santos, mas astucioso e matreiro, conseguiu sua liberdade e recuperação dos seus bens, já arrolados para serem confiscados. Tentou ainda incriminar o provedor Jacinto Lopes e Rodrigo César, mas o mestre fundidor, Francisco Ribeiro descobriu, por acaso, que a chave fornecida por Sebastião Fernandes abria as fechaduras do cofre, onde eram guardadas cuidadosamente as barras de ouro.
Reconstituída passo a passo a ladroeira, descobriu-se pessoalmente este fato.
Os dados foram colhidos nos anais do Senado da Câmara - Crônicas de Cuiabá - Anos de 1727 - 1728.
E em notas de Toledo Piza.
NOTA: - Este relato teve como fonte - História de Mato Grosso de Virgílio Corrêa Filho - Instituto Nacional do Livro.



Beaurepaire Rohan - Anais de Mato Grosso.
24 - OS TRÊS GARRAFÕES DE OURO (Esta lenda é de tradição popular)
Mal se apagavam da lembrança os fatos sombrios que enodoaram a nossa história, pelos idos de 1834, com o assassinato de vários adotivos e saque dos seus bens, clandestinamente foram aparecendo, alguns mais ousados e apressados em arrebanhar os despojos de suas fortunas.
Aqueles, sobre os quais pesava ordem de prisão ou extradição, não se mostrando tão desenvoltos, como os primeiros, enviavam emissários, guardadores dos segredos locais, no afobamento da retirada, haviam escondido os seus pertences valiosos.
Embora não pairasse mais, ameaçadora, a sombra de Poupino Caldas, morto de modo traiçoeiro por uma bala de prata, a falta de segurança pública, a timidez natural do povo cuiabano restringiram o movimento da cidade, principalmente na calada da noite.
A Rusga, acenando com a visão tétrica de uma noite de terror para os Bicudos, o rumor de quebra-quebra, saques, a figura pálida e autoritária do bispo D. José empunhando um crucifixo para conter a sanha da rebelião, estava bem viva na memória dos que a presenciaram, mesmo sem dela participar.
Quando o homem desconhecido se abeirou do proprietário do casarão da rua do Campo, com os seus oito janelões de treliça e propôs aluguel do imóvel, pagando, de entrada, três meses adiantado, todo o mundo ficou de orelha em pé.
E, quase derrubou o queixo dos abelhudos quando, ao findar três dias, deu no pé, sumindo por esse mundo de Cristo, levando um burro de montaria e outro de carga, tão alquebrado ao peso de um fardo que mal podia andar.
Como os dias se passaram sem que o misterioso inquilino aparecesse, o senhorio foi arejar a casa, abrindo alguns compartimentos.
Qual não foi o seu espanto, ao encontrar a sala de entrada com o piso removido e bem no centro uma escavação, mais ou menos profunda, na qual se delineava o contorno de três garrafões, desses que nas usinas se usavam para engarrafar pinga.
Correu de boca em boca, que os ditos continham ouro puro.
Teriam sido enterrados às presas, na noite da Rusga e o segredo trocado por uma tropa, pelo Bicudo fugitivo com a família, que fora embicar nesse posseiro morador na estrada velha do Goiás.
NOTA: - Está lenda é de tradição popular.
25 - MANOEL COVA
A varíola que assolou e dizimou quase totalidade da população de Cuiabá, após a guerra do Paraguai, provocou vários incidentes dramáticos, uns caricatos, outros, mesmo em meio ao terror e lendários e inverossímeis, por vezes, alguns deles.
Chá de erva-de-cão, feito de fezes de cachorro que, segundo acreditavam na época, era tiro-e-queda para curar bexiga, até varíola negra, já se tornara inócuo para debelar a peste.
Morria gente como farinha. E o cemitério do Cai-cai, onde enterravam os bexiguentos não chegava a comportar tantos cadáveres, nem era possível abrir covas suficientes, num só dia, para tantos mortos.
Resolveu-se, pois, incinerar aqueles, para os quais não houvesse jazigo suficiente.
Depois de empilhados, eram queimados pelos soldados do batalhão de artilharia, que, num trabalho de auxílio, varejavam as casas, à cata de defuntos ou moribundos.
Certa vez, um soldado encontrou, morre-não-morre, um doente e achou por bem levá-lo junto aos que já haviam expirado, para que aguardasse a própria incineração junto às pilhas de cadáveres. Tratava-se do português José Manuel, residente na rua 13 de junho, antigo bairro do Lavra-Pau. Era já o anoitecer, por isso os praça adiaram a cremação para o dia seguinte.
José Manuel, ao despertar horrorizado, em meio às carnes pútridas da peste, invocou o senhor dos Passos, prometendo erguer-lhe uma capela, se conseguisse reunir forças para atingir a sua casa. Aí chegando, deparou-lhe o vandalismo dos que saquearam e depredaram-lhe o modesto quarto. Mas, atirado a um canto, lá estava o seu colete velho, onde escondia todas as economias.
Cumpriu a promessa, mas coube-lhe o apelido de Manuel Cova.
Nota - Esta lenda, recriada por Firmo Rodrigues no seu livro " FIGURAS E COISAS DE MINHA TERRA" - foi divulgada em primeira mão por Joaquim Ferreira Moutinho, no seu Livro " PROVÍNCIA DE MATO GROSSO" em 1834.
26 - OS PONCE VEM AÍ
Ferviam as intrigas políticas, boatos alarmantes, se avolumando a cada quilômetro percorrido, de usina, de sítio em sítio, onde se encurralavam os maiores redutos dos proprietários dos rivais políticos Ponces e Paes de Barros.
E, era justamente na região ribeirinha, onde o segundo tinha propriedades, que os ânimos se mostraram mais exaltados.
Era assunto geral, que atingia até os subordinados que, naquele tempo continuavam jungidos aos engenhos, recebendo, segundo contam, pouca paga e muito castigo corporal.
No ano de 1906, quando estourou a revolução, havia debates partidários, mesmo entre os empregados da Casa Grande, fantasiando, cada qual, o seu candidato de qualidades sobrenaturais e de defeitos cruéis, conforme um ou outro se tornasse o orago, ou o rival.
Assim para os partidários de Ponce, este representava o Anjo Gabriel, com sua espada de fogo, dominando o seu adversário, premiando os bons e castigando os maus. E vice-versa. Aconteceu num destes sítios, reduto dos patriotas de Totó Paes, mas onde havia chegado a imagem falada do Ponce, coberto de uma auréola de bondade, Ter sido castigada rudemente, uma negrinha, que sempre se destacou das demais pelo seu temperamento rebelde e audaz. Ela havia sido surrada por qualquer falta cometida.
Revoltada, corria pelo terreiro da frente, gritando: "Ponce vem aí!".
Seu patrão, adepto inconteste de Totó Paes, não suportando a afronta, mandou que lhe embebessem as vestes de querosene e lhe pusessem fogo.
Dizem, que era apenas para amedrontá-la, mas, o fogo pegou rápido, estimulado pelo vento que começou a soprar, enquanto, mesmo sentindo arder-lhe as carnes via-se, corpo em chamas, continuar correndo e gritando sempre a mesma frase: "Ponce vem aí!".
Quando conseguiram detê-la, havia só um monte de cinzas. Vestes e corpo.
Dizem, que até hoje, nesse local, quando noite de lua cheia, vê-se uma bola vermelha no céu correr o espaço de ponta a ponta, enquanto uma voz fluida como um eco, repete o mesmo chavão: "Ponce vem aí!".
NOTA: - Obtida na Usina de Itaicy.
27 - A POAIA
A região do Barra dos Bugres sempre foi maior produtora da Ipecacuanha (Ipeca) ou Poaia, cujo nome científico Cephaelis Ipecacuanha, rubiácea preciosa que se encontra nessa região chamada Guaraés.
Dizem que a sua descoberta se deve a um cão que acompanhava uma tropa bororó, que, toda vez que era atacado do estômago, vômitos, etc. embrenhava-se na mata, catava as raízes da planta e as comia. O vômito limpava-lhe o estômago e ele se tornava sadio e lépido como antes.
Durante e após as cheias dos rios, era comum as águas se tornarem lamacentas, turvas e causarem mal ao estômago e intestino de quem as sorvia.
O pajé bororó distribuiu a planta para a tribo que, desde então, desse modo se livrou dos males de estômago e dos intestinos, causados pela enxurrada.
As propriedades da poaia foram logo estudadas nos Laboratórios da Inglaterra e França; e muitas toneladas, em sacolas enormes de lona contendo essa planta, foram para lá remetidas. Estas sacolas foram substituídas, mais tarde por sacolas de algodão ou aniagem.
O caule desta planta tem uma parte subterrânea e a outra se eleva, coisa de palmo e meio; pequeninas flores se transformam em minúsculos frutos roxos de sabor adocicado e produzem vômitos a sua ingestão.
Tem como princípio ativo a emetina, mas, a sua raiz contém: cera, goma, matéria gorda, amido, indícios de ácido tânico e contém outras propriedades medicinais. É uma planta poderosa.
E, como não poderá deixar de ser, atraia a cobiça daqueles que desejavam fazer fortuna rápido.
Isto aconteceu no começo do século. A ovelha negra de uma família de almirante, e de generais, pertencentes à melhor sociedade do Rio de Janeiro, veio dar com os costados em Cuiabá, no posto de Cadete.
Diga-se de passagem que este posto, agraciava o vale investido com um bom vencimento e as regalias de um alferes ou de primeiro tenente. Estas regalias se equiparavam às de qualquer oficial de carreira.
A notícia de diamantes e ouro à flor da terra e o vedetismo da ipeca na Europa, com suas evidentes propriedades medicinais, chegaram aos ouvidos do nosso militar, doido por adquirir fortuna fácil.
Logo ao chegar a Cuiabá, tomou-se de encantos por uma menina-moça (11 anos e meio); mais menina que moça. Casaram. O nosso herói comprou uma mula.
Munia-se de um sapicuá de matula: paçoca de carne seca com farinha; bananas.
Acomodou a mulher na garupa e zarpou para a Mata da Poaia.
Inexperiente da vida sertaneja, a viagem lhes tornou fascinante pelas surpresas do inesperado. Mas, penosa também pelas surpresas da vida da mata.
Os pios dolentes da jaó, foram tomados como apelos plangentes de almas penadas: o que os fez, muitas vezes, acelerar a montaria. Ainda não portavam sequer, um cantil com água. Acossados pela sede, foram beber à porta de um rancho. Ali os receberam pessoas com orelhas crescidas, nariz ferido e pés escalavrados. Eram leprosos. Agradeceram, desculparam-se pelo equívoco e foram alojar-se em plena mata.
Após muitos percalços chegaram a Brotas. Arrumar pequena expedição para desbravar a mata, não foi difícil. Mas, nosso herói ignorava completamente a lei da selva.
Tudo se faz, porém com a devia licença das tribos adjacentes. Por isso ou por falta deste entendimento, quando voltaram ao acampamento, encontraram uma flecha fincada à porta do rancho. Sinal de que os índios estavam muitos zangados, por alguma grave infração.
O nosso cadete não tomou conhecimento disto. E, no dia seguinte, ao retornarem das explorações, encontraram uma segunda flecha fincada mais próxima ao rancho. Sinal indiscutível de um próximo assalto dos índios que não fazem uma terceiro aviso.
Nosso herói e jovem esposa, abandonaram a colheita da poaia e desceram o rio no maior silêncio para evitar um ataque da tribo local.
Até que os índios foram condescendentes e isto ocorreu mais de uma semana após o seu acampamento.
Enquanto o marido se embrenhava na mata, levando um pequeno séquito, a jovem esposa permanecia no rancho, preparando a bóia para os desbravadores.
Eis que numa dessas tardes, ela escutou um urro tremendo, que a fez aterrar-se, sem saber o que poderia acontecer.
Relanceou os olhos ao redor de si, e, como esconderijo, só viu uma bruaca (bolsão) de couro, pendurada na viga do teto do rancho.
Não vacilou, e nela se escondeu. Tremendo, no seu esconderijo, sentia os passos do animal que farejava a bruaca, rodou pelo rancho e se retirou.
Ela só abandonou seu esconderijo, quando a turma chegou, quase anoitinha.
Os práticos do sertão reconheceram as patas de onça, no chão batido.
Isto fio também um grande incentivo para o casalzinho abandonar a vida sertaneja.
NOTA:
1- Só que esta narrativa não é ficção. É tudo verdadeiro e a heroina foi a professora Joaquina Ferreira Lima.
2- Narrada por firmo José Rodrigues em: Figuras e Coisas de Nossas Terra, v.1



28 - O FORTE DE COIMBRA
No ano de 1801, Ricardo Franco comandava Coimbra, quando os índios Guaicurus levaram-lhe a notícia que: "Lázaro Ribeiro, governador de Assunção, arrebanhava grande forças para atacar aquele Forte"
Imediatamente Ricardo Franco enviou duas canoas para o sul, em reconhecimento do número e condições de expedição invasora. E também, solicitou urgente socorro de Cuiabá, para a Fortaleza, pois esta achava-se carente de tudo.
A 16 de Setembro, três sumacas de D. Lázaro Ribeiro, guarnecidos de canhões de grosso calibre e seus quatrocentos soldados, romperam fogo contra o Forte.
Coimbra respondeu-lhe bravamente. Mas o inimigo percebeu a inferioridade da guarnição do Forte. E, D. Lázaro, muito astuto, içou uma bandeira banca e propôs a Ricardo Franco uma rendição.
"Não", respondeu-lhe este, lacônica e bravamente.
D. Lázaro recrudesceu a investida, mas a pequena guarnição do Forte rechaçou-os novamente.
E nosso presunçoso inimigo, bem armado, como os seus 400 soldados, retornaram vencidos, escorraçados pelo minguado contingente de Ricardo Franco.
Apavorado dizia D. Lázaro: "Dios so poderia tomá-la, pero com dificultdad".
Mais tarde apesar dos apelos do deputado por Mato Grosso, Corrêa do Couto, da urgência de o governo aparelhar o Forte, nada se fez. O seu apelo não teve eco.
Mais tarde, Porto Carreiro, com a ajuda dos índios Lapagates, rechaçaram as forças de Gonzales.
Neste feito, até as mulheres colaboraram, rasgando os seus vestidos para se fazer munição.
Tiveram, porém de abandonar do Forte pela total falta de munição. E fizeram a retirada em silêncio, levando tudo, salvando-se toda a guarnição.
O inimigo, ao chegar, encontrou o forte vazio completamente.
NOTA - Isto é um verdadeiro, porém com foros lendários dado, o minguado contingente do Forte, Ter rechaçado por mais de uma vez, um inimigo muitas vezes poderoso, pelo número desigual dos seus soldados.
Cesáreo Prado - "Passeio pelo Passado" - Jornal do Comércio - Rio de Janeiro - ano 1954.
29 - A DESCOBERTA DO DIAMANTE
Ao descobrirem o primeiro diamante, descrevem-no como uma lanterna mágica a tremular dentro da noite, ao capricho da brisa.
A estória dessa descoberta, amalgamando fatalidades e sortilégios, foi uma generosa dádiva do acaso.
Tudo começou como uma fagulha, à margem de um despenhadeiro. Quem o descobriu foi um ingênuo índio Bororó. O brilho incomum na barranca de uma rio fê-lo por mera curiosidade, abeirar-se daquele fenômeno desconhecido.
Foi em casa do fazendeiro, Sr. João José de Moraes Cajango que, em pessoa mostrou a todos, algumas formas de diamantes, que havia mariscado nas margens do Araguaia. Essas formas, que foram analisadas em Cuiabá eram um indício seguro da existência do diamante.
Os ouvintes arregalaram os olhos, diante daquela realidade promissora.
A um lado, quieto, observava tudo, um índio Bororó, já catequizado pelos missionários salesianos, quando o Cajango o interrogou: "Você conhece estas pedras?"
Continuando calado, o índio meteu a mão num sapicuá e retirou deste reluzentes pedrinhas que a todos embasbacaram. E foi soltando a língua: " Ah! Eu vi uma pedra que brilhava tanto, como olho de onça. Mas olho de onça não era, porque onça tem dois olhos só. Pensei que fosse do Bode, do Coisa Ruim, do Diabo, nem sei. Depois, tomei coragem e peguei nela e vi que era uma Tori-Cuege, uma pedra de estrela." Explicou ainda, que para os índios a Tori-Cuege, é uma pedra portadora de grande mistério.
E o que você fez com a pedra grande?
- Joguei fora, respondeu-lhe o bororó.
Isto se deu em fins do ano de 1908, quando levas de baianos, venciam quilômetros, a pé, para trabalharem nos seringais do Oeste Mato-grossense. Pois aquela leva de aventureiros à caça do látex, resolveu explorar a região do Araguaia, à cata do diamante, que aflorava à margem do rio.
NOTA: Estes dados foram fornecidos por Sílvio Florestal - " O Brasil Trágico". São Paulo, Empresa Gráfica Rosetli - 1928.



COMPLETANDO "O DIAMANTE DO RIO DAS GARÇAS"
Contam também que o diamante visto pelo índio Bororó, era tão grande, que lhe deram o nome de Abacaxi e ele foi encontrado num despenhadeiro de difícil acesso.
Dizem ainda que, certa vez, um jovem se atreveu a encontrá-lo, mas foi morto tragicamente, com um ferimento roxo na garganta. Logo após, outro rapaz morreu no mesmo local e nas mesmas circunstâncias.
Foi o bastante para forjar a seguinte lenda: " O diamante luminoso estava junto a uma ponta lisa, de uma pedra à flor d'água e, por mais que o rio enchesse, não conseguia encobri-la. Era guarda desse tesouro, um negro musculoso de estatura descomunal e tinha os pés e as mãos promovidos de membranas nadadoras, como pés de patos. Quem se aproximasse da pedra seria arrastado para o fundo do rio. Lá, o seu sangue seria sugado pelo negro, até a última gota. Este era o Negrinho D'água.
NOTAS: - Dados fornecidos por Francisco Brasileiro - "Terra Sem Dono" - Contos dos Garimpos - São Paulo, Ed. J. Fagundes, 1934, pág. 60 e 61.




A EDUCAÇÃO NA FESTA: TECEDURAS DA CULTURA POPULAR NA FESTA DE SÃO BENEDITO, EM CUIABÁ

A Educação na Festa: teceduras da cultura popular na Festa de São Benedito, em Cuiabá

Dejacy de Arruda Abreu
Mestre em Educação Universidade Federal de Mato Grosso


A pesquisa sobre a Festa de São Benedito foi desenvolvida no espaço da Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Cuiabá – Mato Grosso. Buscou estudar e compreender a Festa como estratégia de educação e formação para a cidadania. Esta pesquisa se refere à Festa realizada em torno de São Benedito, santo negro, filho de escravos, nascido na Itália, e festejado também em Cuiabá de maneira muito significativa há quase três séculos, de modo que há cenário e espaço diferenciados no que diz respeito à Itália e a realidade brasileira, mato-grossense e cuiabana. A devoção a São Benedito em Cuiabá tem seu marco inicial, segundo os relatos históricos, entre os anos de 1719 e 1722.

Igreja de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário em Cuiabá, Mato Grosso.
Foto: Dejacy Arruda Abreu

Em Cuiabá a devoção a São Benedito é tradição dos negros escravos e ex-escravos, pessoas simples e pobres que parecem ter encontrado no santo um alento de esperança diante da vida dura que levavam nas terras cuiabanas. O culto a São Benedito e a tradição da Festa nasceram junto ao povo sofrido, pobre e negro de Cuiabá.

Estudando uma Festa tradicional cuiabanidade, como a de São Benedito fui entendendo, com o auxílio de fontes documentais e também de relatos atuais dos devotos, que a Festa nasceu em terras mato-grossenses juntamente com a conquista.
O tempo desta Festa, em Cuiabá, é atípico. Ela não coincide com o nascimento, com a morte e nem com a canonização do santo. Segue o calendário da Festa do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, atualmente celebrada na Igreja Matriz, a Catedral Metropolitana.
A do Divino foi considerada, nessas terras, como a grande festa. A de São Benedito era uma Festa menor, sem nenhum prestígio social. Por isso os devotos desse santo, com as sobras da festa do Divino faziam a sua festa.

Produção da paçoca de pilão, comida tradicional da Festa de São Benedito em Cuiabá Foto: Dejacy Arruda Abreu

Com o crescimento da devoção a São Benedito devido aos muitos milagres atribuídos a ele, o santo se popularizou a ponto de ser considerado atualmente como protetor da cidade, enquanto o Divino continuou sendo o padroeiro. Uma enquete dirigida aos cuiabanos sob o título "O Santo e a Festa que têm a cara de Cuiabá", feita pelo Jornal Diário de Cuiabá e publicada no Caderno Especial de Cidades, traz o seguinte resultado:
Qual santo de devoção tem a cara de Cuiabá?

São Benedito 60,6%

Senhor Divino 18,6%

São Gonçalo 12%

Bom Jesus de Cuiabá 6,1%

Qual festa popular tem a cara de Cuiabá?

Festa de São Benedito 67,6%

Festa do Senhor Divino 22,3%

Micarecuia 5,5%

Carnaval 2,5%

Falar da devoção a São Benedito em Cuiabá e de sua Festa na Praça do Rosário é falar da cultura mato-grossense. Foi nessa diversidade cultural, sobre a qual fala o historiador Costa e Silva, que localizei os devotos do santo negro
Formada pela intrepidez do bandeirante, pela bravura do negro escravo e pela inocência do índio aguerrido, é a nossa cultura o que há de mais representativo da herança congênita dessas três raças. Representa a nossa história, a nossa memória social, as tradições, técnicas, experiências, crendices e acúmulo de conhecimento de quase três séculos de miscigenação racial. Nessa simbiose de civilização está a cultura mato-grossense. (Costa e Silva, 1997)

A Festa de São Benedito chegou com as levas de migrantes que, pouco a pouco, ocuparam a região que hoje é denominada Mato Grosso. Estes, instalaram-se no centro de maior circulação de pessoas e de exuberância do ouro: Cuiabá. Essas levas de migrantes provenientes dos quatro cantos do país e outros tantos grupos estrangeiros, especialmente portugueses, trouxeram em sua bagagem diferentes costumes, ritos e jeitos peculiares de ser e viver. Essa Festa reflete certa síntese cultural dos vários grupos étnicos, resultando na mestiçagem que vai revelando as características próprias do povo mato-grossense: afro-ameríndio. Descendente de negros trazidos para preação de índios em terra de etnia Bororo em suas diversas denominações:Paiaguá, Guaicuru, chapadense e tantos outros que ocupavam o território que então abrangia o atual Estado de Mato Grosso do Sul, nos limites do município de Camapuã, prolongando-se ao norte até próximo ao que hoje chamamos "Nortão", a mil e duzentos quilômetros acima de Cuiabá.

Evidencia-se na grande maioria dos devotos da Festa de São Benedito a inclusão de elementos culturais advindos do branco e do negro e do modo de sentir Bororo. Cuiabá expressa uma certa síntese dos diversos segmentos culturais vivos em Mato Grosso, por meio do folclore, da literatura, das artes plásticas, do teatro, da música, do artesanato ou, mesmo, dos apetitosos pratos da tradicional culinária cuiabana, os quais recebem especial atenção como referência e chamariz nas Festas de São Benedito.

Procissão de São Benedito, em Cuiabá, Mato Grosso, 2006 Foto: Dejacy Arruda Abreu

É nesta voragem de mergulho numa humanidade singular, cuiabana, mestiça, sincrética, que se derrama no corpo e na alma, que o processo de criação de humanidade flui: processo educacional profundo, artesanal, que supera as linhas de produção em série da educação escolar, encharca o cotidiano das casas, dos povoadores e emerge no espaço e tempo da Festa.

A investigação desse objeto possibilitou compreender o sentido da Festa de São Benedito num contexto cuiabano intercultural, quando emerge, reiteradamente, uma simbologia espaço-temporal de diáspora que nega e afirma, bem como produz e reproduz, educacionalmente e de forma coletiva, identidades que carregam interesses contraditórios do ponto de vista econômico, simbólico e político.

A Festa dentro desse contexto de contradições se revelou como estratégia de educação e formação para a cidadania. Ela, de diversas formas, oferece aos festantes um aprendizado que tem a ver com seu próprio cotidiano, sua participação e atuação social, seu estar no mundo. Dentro desse espaço, chamo esse aprendizado via Festa de ações educativas socializadoras compreendendo que é esse o papel da Educação, seja ela formal ou não: o de estabelecer diálogo comunicativo dos seres humanos entre si, com os outros e com o mundo, de forma a fazê-los membros de sua sociedade, integrando-os, homens e mulheres, no seu meio social e cultural como atores e protagonistas de sua própria cidadania.

A devoção e suas práticas possuem muitos aspectos formalmente não-religiosos: a submissão aos mais velhos, o acolhimento e a reiteração da tradição familiar local, a circunscrição dos novos devotos na esteira da visão do mundo, dos valores e de deveres contraídos com a comunidade; o compromisso com a vida, com o respeito aos outros, com o reconhecimento dos mais pobres, e de justiça distributiva, valores estes que são reconhecidos pela sociedade e ligados a “pessoas de bem”.

Para entender o que acontece no sentido de aprendizagem não formal, mas da convivência, apóio-me na visão e percepção do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão (2002a, p. 141):

[...] todo acontecimento da educação existe como um momento motivado pela cultura. Mas toda cultura humana é um fruto direto do trabalho da Educação. [...] aprendemos na e da cultura de quem somos e de quem participamos (grifos do autor).

Apoiada em Brandão no que se refere à Festa, concebo-a como tempo e espaço de aprendizagem. O aprender na Festa pode estar misturado com as coisas da vida e apresentar-se como cultura cotidiana, não do rotineiro, mas como movimentos que transpõem para algo mais, que fazem com que os envolvidos valorizem o que aprenderam e queiram fazer dela a sua experiência, o seu aprendizado. O aprendizado aqui está grávido de continuidade.

Originalmente a Festa nascida da devoção ao santo negro constitui a expressão de fé da comunidade cuiabana e mato-grossense negra, pobre e simples. Apesar dos preconceitos de raça e de classe operantes no Brasil, encontrei na Festa devotos brancos descendentes de portugueses, alemães, italianos, junto com a população negra e indígena, bem como membros da elite cuiabana festejando lado a lado com os socialmente excluídos. Todos celebram a devoção a um santo que não admitia racismo e discriminação, num mesmo tempo e num mesmo espaço.

Com olhares e contribuições de pesquisas diversas em torno da cultura brasileira e em especial de Mato Grosso, busquei entender como o povo cuiabano celebra durante todo o tempo a vida, preservando o tempo e o espaço da Festa e demarcando o espaço deste evento como distinto dos demais espaços da cidade. Utilizei a vertente fenomenológica de Merleau-Ponty (
1999) no que tange à noção de temporalidade. O conceito de educação emancipatória foi buscado em Paulo Freire (1997; 1999). Também recorri à etnografia realizada pela Profa. Maria de Lourdes De Lamônica Freire em Vila Bela da Santíssima Trindade (1988) e aos conceitos basilares de Rita Amaral (1996; 1998) sobre a festa e a significação do festejar no Brasil.

Aqui abro um parêntese ou outro veio de interlocução para dizer do "sobrevôo" necessário para pelas Irmandades, posto que a Festa de São Benedito estava nas mãos delas.

As Irmandades eram formadas por grupos de pessoas leigas, organizadas, que legalmente assumiam o cotidiano de vida das capelas, constituindo, de fato, o poder local religioso e social. Em Cuiabá, essas Irmandades foram responsáveis pela Igreja do Rosário e São Benedito, uma vez que os padres, à época nessa região, constituíam número pouco expressivo e a Igreja do Rosário não era considerada ainda Paróquia, mas, sim, uma capela de devoção.

Nas mãos das Irmandades de São Benedito toda a organização, arrecadação e festeiros da Festa se mantiveram até a década de 80, quando a paróquia, por meio de suas lideranças religiosas e leigas, movidas pelo florescimento de pastorais e movimentos sociais, como que toma a Festa do poder das Irmandades e passa a organizá-la e concretizá-la na Praça do Rosário. A partir de 1982, devotos, independentemente de sua posição e condição social, podiam ser rei ou rainha da Festa de São Benedito.

Ocorreu-me, com o andamento da pesquisa, o entendimento de que, para descrever ou simplesmente falar dessa festividade dos cuiabanos, eu precisava como que descer ao "chão" da Festa; colocar os pés nessa realidade com mais freqüência e auscultá-la sem pressa. Essa escuta resultou de um envolvimento maior com o objeto pesquisado e com a multidão dos devotos. Eu não era uma pessoa a mais; tornei-me um rosto conhecido e cuja presença logo alguém cobrava quando algum momento lembrava o santo..

Após um longo trajeto que também se expressava na compreensão da Festa e dos seus aspectos pedagógicos intencionais e espontâneos de aprendizado, a pesquisa concluiu que a educação aqui referida esteve e está presente de forma marcante nos processos que medeiam a Festa justamente porque ela celebra o que se vive; celebra a vida do ser humano, possui caráter ético, estético, político e constitui, ontologicamente, o ser humano convidado a se criar (autopoiésis) pelo chamado de estar a cada dia sendo. Portanto, não tem forma previamente definida, ou única, porque se move no e ao ritmo do tempo, como um quadro sem moldura, sem a inscrição de um(a) único(a) autor(a), mas com a inscrição de todos(as) os(as) autores(as). E no movimento da Festa, o aprendizado acontece.

As pessoas aprendem e ensinam no movimento da Festa. São trocas de saberes sobre o seu limite e o limite do outro, saber ouvir o diferente, acolher as experiências e o respeito pela tradição. Assim, também eu fui ensinada no aprendizado da Festa.Passei a aprender com ela, afinando-me, iniciando-me nela, sendo educada por ela, educada em minha sensibilidade, em meu acolhimento, em minha espiritualidade, em minha dimensão comunicativa e expressiva para a solidariedade e o trabalho conjunto. Olhando-a por dentro e ao seu avesso, lembrei-me de Carlos Rodrigues Brandão quandose refere à cultura do outro, o diferente de "mim", numa troca mútua de experiências, sem que um se sobreponha ao outro, mas que se comunique na cultura:

Festa São Benedito em Cuiabá, Mato Grosso, 2006 Foto: Dejacy Arruda Abreu

[...] é que o outro só se dá a compreender quando nós formos capazes de decifrá-lo a partir do seu próprio ponto de vista. Isto significa que devo ser capaz de, primeiro, pensar a cultura do outro, através dos termos com que ela se pensa a si própria para, depois, então, a partir daí, ser capaz de associar a compreensão de tal cultura, com base em seu próprio ponto de vista, a minha lógica. (1986, p. 9-17)

Sendo assim, a educação simplesmente acontece em qualquer espaço de vivência das muitas experiências humanas, como uma celebração de trocas simbólicas de signos e significados para um determinado grupo. E para esse grupo ela representa mais que a fala ou a escrita: ela provoca movimentos no corpo por inteiro, envolvendo-o de tal maneira que o conduz a se expressar, a comunicar o que a ele acontece. Por isso o corpo dança, canta, pinta, sorri, experimenta, se alimenta, chora, contrai-se, atrai, distrai-se, lança-se, abraça, silencia-se... O ser humano como que comunica a outro humano o que lhe acontece com palavras e na ausência delas.

Parece-me que, de certa forma, o cotidiano de nossas famílias, ruas, escolas, igrejas, clubes e outros tantos espaços permitem tecer relações de aprendizado nas quais a vida e as experiências se misturam. Seja num ambiente festivo informal, seja num formal, delineamos definições de identidades que nos identificam com o que acreditamos ou não, pelas quais lutamos ou não. O que estou buscando dizer é que a educação acontece primeiramente longe de um espaço fechado, demarcado, ensaiado e institucionalizado.

O direito ao exercício da cidadania foi uma categoria que permeou esta pesquisa. A Festa abriu fortemente a compreensão de um espaço social que suscitou nos devotos e envolvidos com o santo um processo de tomada de consciência da igualdade de todos perante a lei. O movimento social que é percebido e na preparação e nos dias da Festa revelou o avanço na compreensão do direito à cidadania que emergiu reiteradamente dentro da sociedade contemporânea cuiabana.

Marilena Chauí (
1984) afirma que a luta pela cidadania implica uma conquista social e política diferenciada, ampliando, assim, a análise sobre o tema no tocante à democracia, com o que concorda Maria Vitória Benevides (1994, p. 9) ao dizer que a cidadania ativa é aquela que institui o cidadão como portador de direitos e deveres, mas, essencialmente, criador de direitos para abrir novos espaços de participação política. Isso me levou a compreender que cidadania carrega ações de sentidos diversificados, pois ela emerge dos direitos e deveres de toda sociedade, reconhecendo a todos como iguais perante a lei, devendo possivelmente mover a sociedade para um processo de participação e compromisso social. Foi numarealidade de cansaço, de lutas e de resistências que a teimosia do povo cuiabano e mato-grossense encontrou espaços na Festa de São Benedito ou os criou para manifestar sua indignação e negação da ordem imposta. Esses espaços -seja o da Festa ou seja o da Praça do Rosário em si-, são lugares de fortalecimento da luta, de descarrego das tensões, do medo e de toda forma de poder que produz a morte.

Devoção em família Foto: Dejacy Arruda Abreu

Educação

A educação está presente na vida do ser humano, faz parte ontológica da sua natureza. Ela acontece de formas diversas, espontâneas e carregando, de alguma forma, intencionalidades. Como pondera Brandão (
1995, p. 7):

Em casa, na rua, na igreja ou na escola, de um ou de muitos, todos nós envolvemos pedaços da vida com ela: para aprender, para ensinar, para aprender-e-ensinar.

A educação nesta pesquisa foi entendida como aquela que invade a vida e é aprendida através de concepções diferentes, em mundos e culturas diversas. Com isso afirmo que a educação não deve ser concebida deforma única, institucionalizada.

Observando a Festa e participando de sua pedagogia organizacional, entendo que a Educação na Festa e para além da Festa é a soma da tecedura de diferentes processos, podendo ser eles pessoais, interpessoais e outros que culminam na construção de “valores diversos”. Estes valores poderão ser válidos para um dado grupo de acordo com sua experiência, sem que haja um único grupo guardião do saber válido, pronto e acabado, pois a educação ou o conhecimento é a soma de experiências que podem ser válidas para um grupo, mas para o outro pode não ter o mesmo valor. Nessa experiência com o diferente, reconhece-se a importância da diversidade cultural. A educação, portanto, pode ser entendida como uma colcha de retalhos, formada por pedaços distintos, descolados de seu todo. Concordo com Brandão (
1995) quando diz que “[...] não há uma forma única nem um único modelo de educação; a escola não é o único lugar onde ela acontece e talvez nem seja o melhor; o ensino escolar não é a sua única prática e o professor profissional não é o seu único praticante”.

A Festa aqui estudada é entendida como instrumento educacional, dado que nela se constituem identidades, finalidades, processos, projetos, congregando a diversidade numa certa unidade precária que se encontra explicitada por suas formas e conteúdos que geram, sustentam e garantem a vida, a autonomia e a liberdade. Afirma o universal que somos e o singular de que nos fazemos. De alguma forma o povo que festeja une-se e se identifica com os elementos, símbolos ou espaços que a congregam. Há algo que os torna diferentes, únicos e por isso universais, enquanto humanidades concretas e empíricas.
Ribeiro (
1982, p. 44) evidencia que:
A festa como instrumento, representada pelo cotidiano, pelas famílias, pela experiência de vida, é uma escola, cujo sujeito pedagógico é o próprio povo, que orienta e revigora comportamentos, faz participar de crença e valores, perpetuando um universo simbólico.
A Festa da Igreja do Rosário e São Benedito não é exceção. Constitui uma via fundamental de produções sociossimbólicas que se entrelaçam em relações ressignificadas por teias de sentidos que possuem alguns arrimos e tessituras no transcendente. Tem sido expressão de negação, de alienação, de fuga do conformismo, da individualidade vazia, mas que se inspira na solidariedade, na luta de grandes projetos humanos e políticos.
O espaço da Igreja do Rosário e São Benedito onde acontece a Festa produziu e continua a produzir humanidades marcadas pelo desejo de democracia, de participação e de igualdade. Produziu humanidades solidárias, algumas delas nossas contemporâneas, as quais continuaram a ser inspiradoras da melhor humanidade, como as Padre Emílio, Padre Teodoro Weber, Padre Ten Cate, Vicente Cañas, mais recentemente Ari, Lourenço Fernandes, e muito recentemente Maria Benvinda e Eudson de Castro Ferreira
. Estas humanidades não nasceram da forma como viveram e se expressaram. Foram geradas no movimento de luta, de engajamento, provocado pelos conflitos e na resposta generosa a eles.
Neste estudo do aprendizado da Festa, foi possível entender que aquilo que não trazemos ao nascer e de que impostamente ou de livre arbítrio precisaremos quando adultos, é-nos dado pela educação situada numa dada cultura. Quando digo que a Festa de São Benedito educa é porque reconheço e identifico nela o que chamo aqui de educação socializadora, capaz de desenvolver valores de forma autônoma e pessoal e pôr chão na sensibilidade, significado nas relações, compaixão nos conflitos, sede de justiça diante da maldade, solidariedade na solidão. Estas são manifestações que somente podem ser compreendidas como ações formatadas pelas ações educativas que orientam as humanidades concretas no sentido da solidariedade, do acolhimento do outro/diferente: a organização solidária; a troca; a mútua ajuda; a tolerância nos conflitos; a afinação no timbre da Festa; a doação do trabalho para o santo; o compartilhamento da alegria, da fé e da humildade exigida por São Benedito aos fiéis; a caridade com os pobres; o compromisso ético-político cotidiano. O que estou dizendo é que educação é um processo inclusivo entrelaçado em dimensões decorrentes de processos sociais globais diversos, longe de centrar o seu sentido último em educação escolar institucionalizada que age, na maioria das vezes, como uma agência de controle, produção e reprodução utilizando mecanismos talvez inovadores ou conservadores que reproduzem orientações dos grupos que as instituem
. Esse pensamento e olhar interpretativo sobre Festa de São Benedito levaram-me a Durkheim (1955), trabalhado no livro Educação e Sociedade de Luiz Pereira e Marialice Foracchi (1976, p. 31), o qual me ajudou a compreender como a educação é concebida por esse autor em relação à sociedade: “Se a Educação deve ser sociologicamente analisada como processo social inclusivo, é legítimo conceber a sociedade como sendo, toda ela, uma situação educativa”. Sob a perspectiva durkheimiana, a educação é concebida como processo socializador, entendendo-se que uma geração se coloca no “tempo” histórico, social, político, econômico e cultural como mediadora da outra geração, considerada mais nova, ou como quer chamá-la Durkheim (1955), geração imatura, para com ela e nela concretizar ou inaugurar processos educacionais. Para tanto, é importante que os currículos escolares sejam adequados às peculiaridades de cada localidade e valorizem a cultura como seu patrimônio histórico, artístico, cultural e ambiental compreendida como tarefa paidêutica imprescindível.


Imagem de São Benedito no interior da nave central da Igreja Foto: Dejacy Arruda Abreu

Conclusão
Concluí que a Festa de São Benedito pode ser vista para além de um encontro espiritual, de confraternização popular, de consolidação de uma unidade indistinta e pacífica. Ela não é um mero espetáculo turístico religioso, folclorizado, que se mantém estático no tempo, emoldurada como num museu, como crítica Ortiz (
1991, p. 37) ao se referir aos folcloristas:
Os folcloristas criam museus de tradições populares com o intuito de ‘salvar’ os resquícios de uma época primeva. Mas, assim fazendo, eles se contentam em mirar ‘a beleza do morto’, pois seu objeto de estudo é o passado em vias de extinção.
Ela é fruto de uma trama em curso numa sociedade dividida em classes, com conflitos raciais vivos, com conflitos políticos expostos a nu. Ela está prenhe de vida. A Festa se constituiu, também, num espaço privilegiado que fecunda, cria, reitera e recria as tradições consolidando a raiz dos costumes do povo com os sentidos de suas vidas, mediada pela cuiabanidade e pelas necessidades e desejos postos à mesa pelo tempo. A Festa, circunscrita num espaço, recria a temporalidade ininterrupta, à medida que os devotos festejam o santo com seus familiares. O tempo flui, não há uma mera recordação do passado festivo, o canto, a dança, a oração, o santo e o lugar vão se constituindo como fontes simbólicas que emanam e recriam, de novo, a vivência de um tempo aberto continuado. Cada um experimenta o tempo a seu ritmo que se soma à experiência comum de todos(as). O tempo cronológico, medido, controlado, é abolido pela transcendência que se encarna em todos e em cada um(a).


Notas
Em Cuiabá chamavam-se conquistas às invasões de territórios ameríndios. As pessoas (in memoriam) nomeadas aqui foram e continuam sendo força emblemática da memória de luta, atuação e resistência da Igreja do Rosário e São Benedito. Dentre elas temos os padres jesuítas, o missionário jesuíta Vicente Cañas que foi assassinado na luta pela demarcação das terras indígenas em MT, ex-jesuítas, professor universitário, leigos comprometidos com as causas sociais e políticas em Mato Grosso. O grupo hipoteticamente pode ser uma instituição como a igreja, a escola, a família e outros
Webgrafia
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